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domingo, 8 de agosto de 2010

CONCURSO DE COROAS GOSTOSAS. Uma idéia "saborosíssima!"


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Erótica gramática

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade,começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente.

Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Leiam e deliciem-se! Canto do conto. clique aqui

Meu amigo Ênio, um dos grandes dramaturgos desse país, me dedicou um dos seus contos maravilhosos. Se eu fosse vc seguiria o blog dele. É sempre uma grande emoção...

sábado, 5 de setembro de 2009

Cruz

Eram três. Suas faces denotavam sofrimento incomum. Com um enorme tronco sobre os ombros e amarrados aos pulsos, os jogavam de um lado ao outro da trilha. Era noite ainda, estava para amanhecer. Poucos acompanhavam. Familiares talvez, alguns mendigos, mas... um pouco atrás, homens de uma estirpe diferenciada, montados sobre jegues ricamente enfeitados, ladeavam esse caminhar lento e dolorido. Alguns soldados as vezes usavam a chibata, muito mais como zombaria do que como tortura, pois os três já estavam bastante machucados. Um dos soldados pergunta ao companheiro:
- Porque ele usa aquela coroa de espinhos?
- Não sei direito, não. Mas parece que ele se proclamava rei.
Os dois riem muito e comentam com os outros. Um deles parece não achar divertido e com ar de responsabilidade pergunta:
- E os cravos? Levaram os cravos?
- Claro que sim. Estão todos lá.
- Ótimo.
No monte alguns já esperavam. Era comum quando ia haver mortes. Era sempre ali. Sempre do mesmo jeito. Troncos fincados ao chão em forma de " x ". As mãos e os pés pregados com cravos de ferro de grande tamanho, os membros estirados até causar fraturas, eram deixados até que suas forças os abandonassem e só aí, era permitido às famílias do sacrificados que os retirassem e os enterrassem. Uma cigana, aguardando a chegada dos réus daquela manhã, parecia muito triste com o fato. Aproximando-se de um dos buracos onde eram colocados os troncos, contou quatro cravos para cada um. Olhou para trás, e o pequeno grupo com os condenados começavam a subir a trilha que os levaria à morte. Olhou como quem olha sabendo do que estava para acontecer. Olhava nervosa para os três que subiam e olhava para os cravos. As vezes tapava os ouvidos com as mãos, e voltava a olhar os cravos. Os soldados que já aguardavam no monte aproximaram-se da beira do monte, todos os outros que lá estavam também, pois já se ouvia o lamento dos que naquela manhã seriam pregados aos troncos. A cigana afastou-se e percebeu que todos olhavam para baixo. Olhou para os buracos do centro e para os cravos que estavam dispostos ali. Sorrateiramente aproximou-se e escondeu um dos cravos sob as roupas. Com lágrimas nos olhos, misturou-se aos outros e começou a descer disfarçadamente. Cruzou com o féretro que subia. Olhou fundo nos olhos do primeiro, o que tinha em sua fronte uma coroa de espinhos. Ele também a olhou. Ela apertando o cravo entre suas roupas deixou escorrer suas lágrimas. Ele, ao contrário, apesar de toda a dor que estava sentindo, sorriu. Sorriu como se agradecesse, como se entendesse.
Logo ouvia-se as primeiras batidas e os gritos dos que estavam para morrer sendo pregados aos troncos. Muitos dos que assistiam também gritavam e choravam.
- Onde está o cravo? Gritava um dos soldados que estava incumbido de pregar o que estava no meio.
- Onde está o cravo? Repetia.
- Não sei. - Dizia outro. - Estavam todos aqui! Nós os trouxemos com os outros troncos ontem à noite. Não sei o que pode ter acontecido.
O soldado que gritava aproxima-se do condenado do meio, que já pregado pelas mãos e único com a face em sangue pela coroa de espinhos enterrada em sua cabeça, agarra-o pela barba e irônicamente balbucia baixo:
- Um sofrimento a menos, não é rei? Pois então vou pregá-lo com os pés juntos, judeu! Juntos, entendeu?
Lá embaixo, no pé do monte, para onde a cigana se dirigiu, ela tira o cravo do meio das roupas, ajoelha-se, cava um buraco raso no chão e enterra-o. Ao cobrir-lhe, espanta-se ao ver brotar da terra um líquido avermelhado. Toca-o. Sua face avermelha-se, sente seu corpo esquentar como uma febre súbita. Olha para cima, para o monte e vê levantarem dois condenados em troncos que formam um " x ". E o do meio em cruz. Sente-se quente como num sol de meio-dia, embora estivesse sobre a fria névoa da manhã. A cigana é uma ladra. Ajoelha-se e ora.